Sandra Cordeiro brilha na Trienal – Jornal de Angola

Sandra Cordeiro brilha na Trienal – Jornal de Angola

3 de Abril, 2017 | http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/musica/sandra_cordeiro_brilha_na_trienal


Fotografia: Edições Novembro

Considerada uma das vozes femininas representativas do restrito universo do afro-jazz, Sandra Cordeiro vem edificando a sua carreira desde o lançamento do seu CD de estreia, “Tata Nzambi”, e convenceu o público do Palácio de Ferro, sábado último, num concerto bastante aplaudido, realizado no âmbito da III Trienal de Luanda, projecto da Fundação Sindika Dokolo.

Durante a sua infância, Sandra Cordeiro ouvia, influenciada pelos gostos musicais do seu pai, cantores conhecidos da música inglesa, “soul music” norte-americana, incluindo reputados compositores de música clássica, desde Mozart, Bach, e Beethoven, passando pelos carismáticos Elton John, Bobby Macferrin, Frank Sinatra, e Nat King Cole.
Cantora e compositora, Sandra Cordeiro despertou para o canto aos doze anos de idade, quando foi convidada por uma amiga do seu bairro, Aninhas, para pertencer ao grupo coral da Igreja do Carmo. Nesta altura, destacou-se em relação aos demais irmãos da Igreja, e, gratificada pela experiência adquirida e entrega demonstrada, passou de corista a solista da sua congregação religiosa.
Na Igreja do Carmo cantava o evangelho no altar, tendo a partir daí sentido o amor pleno e incontestável pelo canto, pois a sua voz era muito elogiada e ecoava em toda a dimensão da igreja. Na sequência, surgiu a motivação e decidiu ser cantora, numa altura em que ouvia os discos da Madonna, Michael Jackson, N’Sync, uma banda de jovens dos Estados Unidos da América, formada em 1995, e da Britney Spears, cantora e actriz norte-americana. Sandra Cordeiro começou então a estudar piano e canto lírico na adolescência, ainda na Igreja do Carmo, e subiu ao palco pela primeira vez em 2006, no concurso Estrelas ao Palco, da TPA, Televisão Pública de Angola, tendo conquistado o quinto lugar, tinha então vinte anos. Embora tenha tido uma enorme paixão pela dança, fez parte dos grupos de dança tradicionais na Escola Primária Vasco da Gama, foi na música que Sandra Cordeiro decidiu revelar o seu verdadeiro talento. Filha de António Eduardo Cordeiro Neto e de Eva João da Silva Lemos, Sandra da Silva Cordeiro Silva nasceu em Luanda no dia 23 de Abril de 1986.

Compositora

Embora interprete canções de outros autores, Sandra Cordeiro tem-se distinguido como compositora, e aborda preferencialmente o amor, aquilo que lhe vem da alma, e as ocorrências que vive, sente e observa. A compositora conjuga o impacto da mensagem à musicalidade e os arranjos dos seus instrumentistas. O tema “Esquece”, do CD “Luandense”, com participação especial do cantor e baterista congolês, Kissangwa Júnior, é uma canção da sua autoria cuja letra transcrevemos: Esquece tudo aquilo que aconteceu/ esquece, esquece/vamos ultrapassar isso na boa/ esquece, esquece… Bosana Oh manson Maleka kalayaka eh/Tosalabolingo/ Limbisangayo na manso /Oyonasalaki, Mpema soyo nalobaki /Zonga eh… Não leva isso tão a sério/muda a página// Não leva isto no peito/continua a sorrir por dentro/faço tudo que tenho para me ouvires/ E entenderes que não passa de uma falha/ Dou-te tudo que tenho para me sentires/ que o teu lugar é do lado do meu/mesmo falhando eu/ Esquece tudo aquilo que aconteceu/ esquece, esquece/vamos ultrapassar isso na boa… No entanto, a cantora expressou a opinião como compositora: “Procuro estar confortável tanto como compositora, como intérprete das músicas que me sugerem. Busco, acima de tudo, a versatilidade, novos desafios, superando os obstáculos. Cantando somente músicas escritas por mim, existe o risco de estar na zona de conforto, e das músicas parecerem sempre iguais, por esta razão procuro também interpretar outros autores”.

Tendências

Sobre a sua tendência para o cultivo do jazz e géneros vizinhos, sobretudo para uma jovem da sua idade que, normalmente, teria a predilecção para a música comercial de consumo imediato, Sandra Cordeiro explicou o seguinte: “Acredito que a minha tendência para o jazz deve-se a intervenção divina. Deus deu-me a inclinação para este tipo de música. Outro aspecto relaciona-se com o ambiente em que cresci, ou seja, absorvi desde tenra idade os gostos musicais do meu pai, António Eduardo Cordeiro Neto. Além dos clássicos, os musicais, a interpretação, e o canto, fascinavam-me a dança e os filmes que via na altura. Desde pequena sempre gostei e achava fantástico ouvir esse tipo de música, fiquei apaixonada e afastei-me naturalmente das tendências musicais de consumo imediato”.

Distinções

Ao longo da sua curta mas promissora carreira, Sandra Cordeiro ganhou reconhecimento e projecção internacional quando foi nomeada entre dez finalistas do Prémio Anual das Descobertas, Prix Decouvertes, da RFI, Rádio France Internacional, em 2010. Aos dezasseis anos, participou no concurso de televisão, Estrelas ao Palco, onde foi qualificada em quinto lugar, ao interpretar a canção “I’moutta love”, do CD “Notthatkind”, de 2000, da cantora norte-americana, Anastácia.
Venceu o prémio Voz Cartaz da Spin, em 2006, e arrecadou todas as categorias do Prémio da Canção Cidade de Luanda, em 2006, com a Melhor voz, Interpretação e Letra. Ainda em 2006, a jovem, na condição de representante da província de Luanda, venceu o “Variante”, Festival de Música Popular Angolana, evento realizado na província de Cabinda.
Sandra Cordeiro foi uma das convidadas do Luanda Internacional Jazz Festival, em Agosto de 2009, em que participaram George Benson, Dianne Reeves, Terence Blanchard e Rachel, Hugh Massekela  e Jimmy Dludlu, bem como dos angolanos Paulo Flores, Dodó Miranda, Afrikanita, Mário Garnacho, Hélio Cruz, Dalú Roger e Wando Moreira. Na sequência, deu um salto de suma importância na sua carreira, em 2011, quando participou na décima segunda edição do Cape Town Jazz Festival.
Mais recentemente, Sandra Cordeiro venceu, em 2014, o Prémio “Angola Music Awards”, na categoria Afro-jazz do Ano, com a canção “Luandense”, e já dividiu o palco com Carlos Lopes, Banda Clave, Mário Rui, e a banda de Jazz norueguesa, “Gumbo”.

Concerto

No concerto de sábado último, Sandra Cordeiro apresentou-se no palco “Ngola”do Palácio de Ferro, na Baixa de Luanda, com Isaac Macondozo, teclas, Randie Gouveia, baixo, Hugo Macedo, teclas, Mauro Pereira, Max, guitarra, Apolinário Carlos, bateria, Dalú Rogér, percussão, Sara Dem e Ernestina Benjamim nos coros. Bastante aplaudida, Sandra Cordeiro revisitou as canções “Hoje”,“Um beijo teu, “I wanna love you”, “Rosa Maria”, “Merengue da Nany”, “Talvez um dia”, “Esquece”, “Luandense” e “Jiminina”, temas dos CD “Tata Nzambi” e “ Luandense”.

Depoimento

O pianista Nino Jazz, amigo e produtor da Sandra Cordeiro, fez o seguinte depoimento sobre as composições em parceria, arranjos e perfil artístico da cantora: “Conheci a Sandra Cordeiro no Festival da LAC, Luanda Antena Comercial, em 2005, e daí surgiu a ideia de gravarmos o seu primeiro álbum “Tata Nzambi”, onde fiz produção musical, arranjos, e execução de todas as teclas. Muita gente não sabe que há canções da minha autoria interpretadas pela Sandra Cordeiro tais como “Uma voz no céu” e “Deus vai mudar” e fizemos uma parceria na letra do tema “Jazz para Mukenga”.  No CD “Luandense”, produzi quatro canções e arranjos de metais no tema que dá título ao CD, “Luandense”, e nas canções “Vou viver”, “Jimimina” e “Um beijo teu”. Tenho acompanhando a carreira da Sandra Cordeiro e, felizmente, tendo sido convidado para a gravação dos seus discos e direcção dos seus concertos, o último dos quais foi no Palácio de Ferro, no âmbito da III Trienal de Luanda. Não tenho dúvidas que a Sandra Cordeiro é uma das melhores cantoras da nova geração.”