Manifesto

Actualmente o nosso continente enfrenta o maior desafio da sua história, o combate ao subdesenvolvimento. Vivo inquieto com esta constatação. O Africano parece ter perdido a auto confiança.

 

A nossa incapacidade em encontrar uma solução miraculosa para os problemas do continente tem induzido em dúvida e alimentado um sentimento comum de culpabilidade. Deixámos de ousar pensar, inventar, decidir o nosso futuro, reivindicar o nosso lugar no conserto das nações. O «complexo do subdesenvolvido» provocou a emergência de uma auto-censura.

 

A mecânica parece imparável. O continente africano empobrece, tem portanto necessidade de mais solidariedade. Qualquer tipo de ajuda não sugere nenhuma solução sustentável e torna-se desde logo, dependência. O africano, qualquer que seja a sua condição social, sabe-se assistido. O complexo instala-se, interfere na sociedade como um dardo paralisante, alterando a estrutura moral indispensável para pensar e criar o nosso destino.

 

Não basta uma solução superficial, contra este mal que nos impede qualquer opção de desenvolvimento estrutural. É necessário, por conseguinte, um trabalho de fundo em relação ao ser humano, às suas identidades, e à sua auto-consciência. É evidente que o acesso à educação, à saúde, é uma percepção pertinente do seu meio ambiente constituem vantagens determinantes. No entanto, penso que não existe parâmetro mais fundamental que a cultura para determinar o homem e constituir uma resposta estruturada ao problema do subdesenvolvimento.

 

Contrariamente a uma ideia bastante difundida, os orçamentos culturais dos países africanos são importantes, proporcionalmente aos recursos disponíveis. Torna-se desde logo paradoxal que a arte seja ainda pensada em muitos países africanos mais como um acessório periférico do que como eixo estratégico da acção politica do estado.

 

A arte é um exercício no qual a «dependência» atinge o seu paroxismo. Salvo raras excepções, os projectos de arte em África, não revelam suficientemente a existência das suas especificidades, dos seus contextos filosóficos e sociológicos. Os seus sistemas culturais, as infra-estruturas, os seus meios financeiros, os coleccionadores e a produção de eventos culturais também não são revelados o suficiente. Estamos ausentes de quase todos os domínios culturais e o conteúdo da nossa produção artística é o reflexo disso.
À imagem de um «Deus ex-maquina», o artista produz condicionado por um determinado público, consequentemente, a sua arte deixa de ser o epicentro da sua própria criação. A arte deixa de ser a expressão do que é para ser a percepção do que os outros, alheios à sua cultura, determinam o que deverá ser. É assim que justifico uma certa mediocridade e exotismo na produção artística contemporânea no meu país de origem, a República Democrática do Congo. Apesar do seu potencial para obras expressivas, complexas e audazes tão elevado, os artistas transformaram-se em artesãos, criando cânones estéticos, consagrando estilos, revelando o aspecto decorativo em detrimento do verdadeiro valor acrescentado da abordagem artística.

 

Para que não haja equívocos, o meu propósito não é o de criticar a bem intencionada ajuda ou denegrir os parceiros culturais de África. Na ausência de um projecto alternativo, de uma iniciativa cuja responsabilidade nos incumbe, nós não podemos senão acolher o interesse que nos é dirigido. Esta constatação severa visa sobretudo uma tomada de consciência colectiva.

 

A forma como participamos na vida cultural constitui a dinâmica do nosso desafio. É necessário estimular a criatividade, promover os nossos campos culturais com os nossos meios, questionar as identidades, a estética, o nosso lugar neste mundo e neste século. Não deixemos a outros a responsabilidade de nos dizer o que nós somos e, de certa maneira, o que nunca poderemos ser.

 

A ideia de que, para o século vinte e um, a contribuição de África na história de arte mundial se reduziria ao artesanato decorativo gela-me o sangue. Ou talvez não, faz-me ferver. É necessária a mobilização de todos os actores culturais locais, dos artistas ao público incluindo o Estado, o ensino, as galerias, as academias de belas artes, os coleccionadores, em suma, de toda a sociedade. Se não dissermos ao mundo o que somos, se não mostrarmos que somos capazes, nunca poremos termo à incompreensão, à condescendência e ao preconceito.

 

O resultado alarmante a nível continental revela, no nosso país, a importância e o alcance excepcional da nossa primeira trienal de arte contemporânea. A Trienal de Luanda inscreve-se precisamente na perspectiva lúcida que aqui manifesto. Trata-se, tomemos consciência disso, de um acto maior de política cultural pelo qual nós recolocamos o ser humano, em Angola, no centro da estratégia de desenvolvimento.

 

A Trienal de Luanda, que será uma realidade este ano, questiona os habituais mecanismos de promoção da cultura em África. Concebida, desenvolvida e financiada em Angola pelos actores culturais privados e públicos, a Trienal permitirá pôr em evidência os artistas, comissários e produtores que possibilitaram a circulação em África e no mundo da estética contemporânea africana. Angola será, o tempo da Trienal, o centro de gravidade cultural de África.

 

O nosso objectivo, ao criar a colecção em Luanda, é confrontar o público a obras de arte africanas, num primeiro momento, sem limitações arbitrárias. Propomos um movimento que sustenta a produção cultural, cuja finalidade é a criação de um centro de arte contemporânea em Luanda e a integração de Angola no circuito internacional da arte. Consideramos, efectivamente, que o acesso à arte tal como o acesso à educação, à água potável e à saúde é uma aspiração legítima dos povos.

 

O mundo da arte parece estar na expectativa da estética actual africana. A presença quase invisível na cena contemporânea, de um continente tão importante culturalmente, criou paradoxalmente uma capacidade de escuta. Apesar do panorama artístico africano, existe a disponibilidade do mercado internacional da arte para absorver uma contemporaneidade africana estruturada e de abordagem ambiciosa.

 

Artistas africanos contemporâneos como Ghada Amer, Kendell Geers, El Anatsui, Billi Bidjocka, Marlene Dumas, John Muafangejo, Ingrid Mwangi, William Kentridge, Olu Oguibé, António Ole, Tracey Rose, Chris Ofili, Yinka Shonibare, Pascale Marthine Tayou, Moshekwa Langa, Viteix, Sue Williamson, entre outros, souberam explorar a africanidade através de um trabalho intimista e rigoroso, reflexo complexo mas sereno daquilo que eles são.

 

Estes artistas afirmaram e introduziram a estética Africana como conceito universal em Joanesburgo, Londres, Dakar, Nova Iorque, Cairo ou Paris tornando-se fundamentais nos circuitos da arte universal. A pertinência desta abordagem criativa, sustentada pelos seus conceitos artísticos, impeliram-nos para a Documenta de Kassel, para a Bienal de Veneza, o Mori Museum de Tokyo, o Centro George Pompidou em Paris, O MOMA e Gugenheim em Nova Iorque. É precisamente o tempo-espaço estético criado por estes artistas que constitui o centro de gravidade da colecção.

 

A iniciativa de expôr a colecção Sindika Dokolo em Luanda como um ante-projecto da Trienal é igualmente um acto político. Resolutamente, escolhemos criar uma colecção africana de arte contemporânea e não uma colecção de arte contemporânea africana.

 

Pomos assim em questão os mecanismos culturais e artísticos que predominam no mundo da arte. Não é uma colecção inspirada no Sul e baseada no Norte, para um público descodificado do contexto africano, escolhemos sediar a colecção SD em África, no epicentro da sua inspiração e do seu imaginário. Por outras palavras, os museus internacionais interessados no conteúdo da colecção SD deverão aceitar participar numa inversão inteligente dos habituais fluxos culturais. É fundamental subverter esses mecanismos. A circulação no continente africano da SD colecção é um principio de que não abdicamos. Este posicionamento ético é imprescindível para nosso desenvolvimento cultural em África. A regra é simples, cada parceiro da SD colecção deve contribuir, como um ensaio, para a organização de projectos culturais africanos em países africanos e no mundo.
Pensamos convictos que a cultura é um direito fundamental do indivíduo na sociedade. Os direitos intrínsecos à criação artística inscritos na nossa constituição são igualmente fundamentais. Por conseguinte, reivindicamos enquanto africanos, quer dizer, como cidadãos no mundo, um acesso ao património cultural e artístico universal. A introdução destes novos sistemas culturais constitui a propulsão da colecção e, gosto de o pensar, determinam a qualidade.

 

O conteúdo da colecção tem sido amplamente enriquecido com obras angolanas. Paralelamente, o papel central da Soso | Lax na estratégia de aquisição das obras de arte, projectou jovens artistas de talento e permitiu-lhes melhorar as suas produções. Criou-se um círculo virtuoso entre o público, os coleccionadores privados e os artistas.
Eminentes personalidades do mundo da arte auscultam e dialogam em Luanda, transformando a cidade numa plataforma cultural no nosso continente. Em simultâneo os artistas participam em eventos internacionais de prestígio como a Arco em Madrid. Os soberanos de Espanha numa visita demorada ao pavilhão angolano interagiram com os artistas. A rainha Sophia emocionada, dialogou com o artista Yonamine sobre a representação contemporânea da rainha Ginga. Os detractores de projectos inovadores argumentam que a arte contemporânea é elitista e de tal modo conceptual que se torna inacessível para o grande público. Alguns artistas podem ser desviantes, algumas obras podem ser qualificadas de «difíceis». Eu compreendo-os.

 

A compreensão e absorção de obras africanas contemporâneas pelo público de Luanda tem vindo, no entanto, a provar-nos que a arte, mesmo de vanguarda, não está reservada a uma elite pseudo-intelectual. A multiplicação de colecções privadas, o sucesso das exposições, a participação e o entusiasmo incrível das crianças e dos estudantes em diversos projectos interactivos Soso | Lax, são sinais suficientes de uma verdadeira emulação cultural e conseguem convencer-nos do bom fundamento da diligência.
Ao promover a cultura da estética e do conhecimento no nosso continente, estamos a dignificar o ser africano. Este esforço de todos os actores culturais, a começar pelos Estados que são confrontados com o desafio da luta contra a pobreza e subdesenvolvimento, é uma celebração da humanidade em cada um de nós. Esta consideração de África por si mesma revela-se como auto-estima.

 

Do olhar do outro, da sua admiração, nasce a consciência do nosso próprio valor. Luanda capital da arte contemporânea em África dentro de 5 anos? Este será a nosso desafio. A criação do Centro de Arte Contemporânea simboliza o culminar deste novo facto cultural necessário à sociedade anngolana.

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