A Aventura Da Revue Noire, De Simon Njami

A Aventura Da Revue Noire, De Simon Njami

A aventura da «Revue Noire» é, antes de mais, tal como todas as verdadeiras aventuras o são, uma história humana. Quatro amigos, cansados do turbulento silêncio que pesa sobre o continente africano – acerca do qual os «especialistas» escrevem um sem-fim páginas elencando contraverdades –, decidem mostrar a África que conhecem: uma África inventiva, vivaz, moderna, decididamente moderna. Uma África que, apesar do peso do passado, das guerras e de uma história tormentosa, está viva; e possui uma energia que, como não podia deixar de ser, encontra o escape mais natural na criatividade. Uma África contemporânea, evidentemente, porque não há no mundo local tão jovem, tão conectado às diferentes tendências e às diferentes sensibilidades do globo como o continente africano. Ao longo dos anos, das viagens e dos contactos humanos, a «Revue Noire» foi dando a conhecer artistas, estilos e formas que, até então, haviam sido cuidadosamente esquecidos pelos que se haviam arrogado o monopólio do bom gosto e do juízo estético. Contrariamente aos fundamentalistas de séculos passados, a «Revue Noire» nunca pretendeu defender uma verdade contra outra. Pretendeu, muito simplesmente, dar a ver e proporcionar ao mundo a oportunidade de optar por coisas concretas, sem pressupostos nem preconceitos. Ao longo de mais de dez anos de actividade, a «Revue Noire» produziu filmes, discos e exposições, publicou obras monográficas, obras colectivas e antologias, e defendeu a ideia de uma África sem complexos, que foi chamada a desempenhar em plenitude o papel que lhe cabe na cena mundial.

O encontro com a Fundação Dokolo, a cujo Conselho de Administração eu me orgulho de pertencer, foi um desenvolvimento natural, inscrito na lógica da evolução das iniciativas que nascem em solo africano. Desde o início, a filosofia que esta instituição defende expõe as mesmas preocupações e as mesmas ambições que presidiram à criação da «Revue Noire». Com a aquisição da colecção de fotografias da «Revue» (quase duas mil provas), a Fundação Dokolo manifestou o desejo de ser o centro de referência no que respeita à cultura africana contemporânea. Foi com grande alegria e uma certa satisfação que os fundadores da «Revue Noire» assistiram à concretização deste acordo, ao qual se juntaram os inestimáveis arquivos de mais de dez anos de investigação em todo o continente. A partir deste momento, o espírito da «Revue Noire» conhecerá a perenidade, que era a principal preocupação dos seus criadores. E não a conhecerá nas caves de uma qualquer instituição ocidental, mas no próprio coração do continente ao qual foi consagrado este trabalho.

Foi escrita uma nova página da reconquista do espírito africano pelos africanos. Trocando o passageiro e o sensacional pelo perene, a Fundação Dokolo confirma o papel que é chamada a desempenhar no futuro. Tendo sempre a seu lado a Revue Noire e os respectivos fundadores.
Simon Njami