Concerto de Wyza confirma créditos – Jornal de Angola

Concerto de Wyza confirma créditos – Jornal de Angola

6 de Março, 2017 | http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/musica/concerto_de_wyza_confirma_creditos


Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

A inclusão do Wyza Kendy no cartaz da programação cultural da III Trienal de Luanda, em concerto realizado sábado último, indicia um sintoma de popularidade de um artista que defende os valores culturais da tradição, o uso das línguas nacionais, e tem sido objecto de uma apreciação crítica positiva junto de um público distante do mercado que vem sustentando a lógica do consumo imediato.

Wyza Kendy é um nome que ressoa, de forma automática, quando o assunto em abordagem são as tendências contemporâneas da Música Popular Angolana de expressão cultural bakongo. Artista da nova geração, foram suas as seguintes palavras sobre a forma como pretende estruturar o futuro da sua obra: “Na verdade ainda não gravei o disco que pretendo. Quero mais liberdade vocal e melódica. No fundo a ideia é gravar um disco mais transparente. Um álbum que tenha o meu conceito, a minha visão sobre os processos de estilização, ou seja, um trabalho que possa estar identificado com o que de melhor se faz no mundo, no domínio da música africana. Nos meus discos anteriores a estrutura geral e os arranjos não me pertenceram. Houve situações em que eu estava em Angola e o disco a ser gravado no Brasil. A minha estratégia é incentivar os mais jovens a compor e cantar em línguas nacionais, preservando sempre os valores culturais da tradição”.
Volvidos trinta e dois anos desde a data da sua entrega à música, Wyza  Kendy foi a mais recente atracção no palco do Palácio de Ferro, no âmbito da segunda fase dos concertos da III Trienal de Luanda, um projecto cultural da Fundação Sindika Dokolo.

Percurso

Filho de Malandila Kissueia e de Elisa Bunga, João Sildes Bunga, Wyza Kendy, nasceu no Bungo, província do Uíge,  no dia 27 de Agosto de 1975. Começou a cantar na infância influenciado pela sua mãe, exímia tocadora de quissanje, instrumento tradicional angolano. Foi assim que, num processo repetido, foi absorvendo a influência e as sonoridades das canções tradicionais da sua terra.
Em 1984, Wyza Kendy fugiu da guerra com a mãe, e, sobre os percalços da sua vida, lembrou o seguinte: “Na fuga para a capital não trouxemos muitas coisas materiais, no entanto esteve sempre presente no nosso íntimo a saudade, e o sentimento de amor nos nossos corações”. Wyza Kendy trabalhou em diversos ofícios para sobreviver: “Apesar do cansaço diário da busca pela sobrevivência, durante anos ao chegar a casa, Wyza Kendy  pegava o violão, compunha e ensaiava as suas canções, sempre em Kikongo”, lemos no catálogo de divulgação do seu trabalho.
Em 1982, com apenas sete anos de idade, já em Luanda, Wyza Kendy foi bailarino no grupo “Five stars” e participou, no dia 5 de Dezembro de 1993 no Festival Infantil, “Brilho Sol”, organizado pela Professora Rosa Roque, em Luanda. Nesta ocasião, conheceu o Rodolfo, um menino do Bié, com quem aprendeu os primeiros acordes de guitarra. Em 1997, entrou para a “Banda vozes negras”, com Tavinho, teclas, Pirica Duia, guitarra, Vando Moreira, baixo, Pascoal, teclas, e Chalita na bateria. Quatro anos depois gravou, “Kinsiona”, seu primeiro álbum, com produção de João Alexandre. Em 2002, conheceu o cantor e compositor, Paulo Flores, que o convida a participar na abertura dos seus concertos, e, em Fevereiro de 2003, foi  convidado a entrar na editora, Maianga Produções. Wyza Kendy explora, fundamentalmente, o género, “Kilapanga”, variando entre o “afrobeat” e o funk, a que se juntam projectos que visam a constante  internacionalização da sua música.

Festivais

Wyza Kendy participou em vários festivais, tanto na Ásia, América, como na  Europa, dos quais destacamos os seguintes: “Festival Lamar de Música”, Espanha, “Sfinks Festival”, Bélgica, “Mundos de Música”, Ilhas Canárias, “Tom de Festa”, Tondela, Portugal, Rec Beats, Recife, Brasil, “Favela Chic”, França, “MMF Sines”, Porto Corvo- Portugal, “TA FNAC”, Porto- Portugal, e “Festival Internacional de Jazz de Luanda, Angola. Wyza Kendy foi presença notável na Casa da Cultura Brasil-Angola em Salvador, durante a cerimónia de atribuição da cidadania Bahiana o Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Na sequência foi um dos convidados num jantar oferecido pelo ex-primeiro ministro português, José Sócrates, no Centro Comercial, Vasco da Gama, em Lisboa, Portugal. Durante a sua carreira, já dividiu o palco com artistas conceituados: Luke Dube, Ziggy Marley, Mirian Makeba, Salif Keita, Yussou Ndour, Mart´náia, Olodum, Seu Jorge, Richard Bona, e Shakira. Wyza Kendy co-produziu em Angola os concertos “Droga, diga não”, de combate ao consumo de drogas, bem como participou no documentário televisivo “África visita África”, gravado no Brasil.

Discografia

Wyza Kendy surgiu no mercado discográfico com, “Kinsiona”, palavra em kikongo que significa solidão, em 2001, uma edição da ENDIPU. Em 2004, registou, pela Maianga Produções, o CD “África Yaya”, pela Maianga Produções, com as canções: ”Kani Ya”, seu fizesse, “Mbangala”, cacimbo, “Mawe”,nome de mulher, ”África”, “Kaxi”, cólera, ”Ngudi”, mãe, “Vava Nguina”, aqui onde estou, “Miezi”, luar, “Nzemba”, desprezo, “Mpasi”, sofrimento, “Nganga”, filósofo tradicional,  “Nvuala”, política, e  “África”, remix. Em  2007WyzaKendy gravou o CD “Bakongo”, igualmente pela Maianga Produções, com as canções: “Bakongo”, “Kwassa”, “Ndignga”, “Sanza”, “Nbyfe”, “Mona Phipha”, “Tsongo”, “Achamale”, “Vício”, “Kyzoba”, “Wyky”, e “Kyllek”. O conjunto da discografia de Wyza teve a produção de: João Alexandre, Angola, Maurício Pacheco, Brasil, Reinaldo Maia, Brasil, e Manecas Costa, da Guiné Bissau. Wyza Kendy participou no álbum “Xé Povo”de Paulo Flores, no “The Coréon Experiment”, de Coréon Dú, 100 % Angolano, de Chico Viegas, Viagem à África, de Mart´nália, do disco da Orquetra Afro-Sinfónica do Brasil, e do projecto da banda, Vedro Neibo, da Sérvia Erzgovina.

Depoimento

O guitarrista Pirica Duia, amigo e companheiro do Wyza Kendy, fez o seguinte depoimento sobre o perfil artístico e a forma como conheceu o Wyza: “Conheço o Wyza há mais de vinte anos e a nossa amizade ocorreu de uma forma muito curiosa. Ele vinha a passar na rua empunhando uma guitarra, chamei-o e disse que eu era guitarrista, trocamos impressões musicais, tocámos e ficamos amigos até hoje. Gosto muito do trabalho dele, porque preserva estruturalmente a cultura bacongo e transforma a tradição em modernidade”.

Concerto

Na sua apresentação no palco do Palácio de Ferro, Wyza Kendy, voz e violão, revisitou canções dos discos “Kinsiona”, África yaya” e “Bakongo”. Depois de uma introdução a várias vozes, bastante aplaudida, interpretou as canções, “Vício”, com voz e violão, “Kile kheleke”, “Vievo”, “Mawe”, “Kandid”, “Atehamale”, “Muelo”, “Ndinga”, “Muana Phipha”, “Luangika” e “Kwassa”. No concerto Wyza Kendy fez-se acompanhar por: Jemeló, guitarra solo, Marabu, guitarra baixo, Chico Panda, percussão, Gabriel Luzaiad, bateria, Strela Som, teclado, e Noel Diatabau, Nelo Santiman e Chiva Man, nos coros.