Check-List, De Fernando Alvim E Simon Njami

Check-List

Uma reflexão sobre quinze anos de contemporânea arte africana no mundo.

Desde há cerca de vinte anos que aquilo a que chamamos arte africana contemporânea tem sido alvo de debate nos cinco continentes. Temos tendência a esquecê-lo, mas a partir dos anos oitenta foram surgindo diversas iniciativas de suma importância em França e no Reino Unido. O festival Ethnicolor, realizado em Paris em 1987, as exposições dedicadas à África do Sul de David Elliott, em Oxford, são os exemplos mais relevantes das iniciativas esporádicas que pretendiam mostrar ao mundo a existência de uma criação africana livre, original e forte. Em 1989, a exposição Les Magiciens de la Terre («Os Mágicos da Terra»), que esbatia as fronteiras entre géneros e categorizações, foi fortemente mediatizada, o que veio perturbar o desenrolar do trabalho iniciado. Simultaneamente, esta exposição controversa conseguiu dar um novo impulso aos artistas africanos, mostrando-lhes que era premente não deixarem que outros tirassem proveito de África contra a vontade deles. A criação, no início dos anos 90, da revista de arte contemporânea, Revue Noire, alterou desde logo a percepção que o mundo tinha da criação africana. Iniciativas como a do artista Fernando Alvim com a sua exposição-manifesto, Memórias Íntimas Marcas, a que se seguiu a criação da revista Coartnews, do espaço Camouflage e da exposição Next Flag, reforçaram a voz de África e afirmaram a vontade de alterar a imagem do continente africano no mundo ocidental.

A partir desta época, que a muitos pode parecer remota, numerosas exposições vieram enriquecer esta história recente, cujo ponto culminante foi, sem dúvida alguma, a exposição itinerante Africa Remix. Mas as coisas não ficaram por aqui. As experiências levadas a cabo em Veneza por Salah Hassan e Okwui Enwezor contribuíram, indubitavelmente, para alimentar o debate. Veneza é muito mais do que um simples cenário ou plataforma. A Bienal de Veneza continua, hoje em dia, a ser um ponto de referência para a arte mundial. A ela ninguém chega como um «parente pobre que se tolera», como alguns podem pensar, mas como uma entidade plena que é tratada com todo o devido respeito. A abertura oficial da Bienal a África pareceu-nos o momento ideal para fazer um balanço prospectivo e crítico da criação africana. E neste momento crucial da história da arte, dispomos dos meios necessários para o fazer. A busca da inclusão já não tem razão de ser, tornou-se obsoleta. Importa agora reequilibrar correntes que, até ao momento, têm caracterizado as relações entre o Norte e o Sul.

O aparecimento da colecção Sindika Dokolo na esfera da arte, não da arte contemporânea africana, mas da arte contemporânea, pura e simplesmente, afigurou-se-nos como um acontecimento-chave na inversão da dialéctica hegeliana do senhor e do escravo. Outra colecção, com a designação de Arte Contemporânea Africana, havia sido criada na sequência de Les Magiciens de la Terre. Além das escolhas e da filosofia da CAAC (Contemporay African Art Collection), que não cabe comentar aqui, a colecção apresentava-se de forma hegemónica, o que era perigoso para a pluralidade da expressão plástica. Baseada em África, a filosofia da Colecção Dokolo foi definida por um artista, um comissário e um coleccionador africanos. Já não se trata de um debate exógeno sobre África, mas do desenvolvimento de um pensamento endógeno, cujo resultado foi a constituição da colecção mais significativa no que respeita à arte africana contemporânea. Muito mais do que um gesto estético, é uma afirmação política.

A Check-List resulta de uma reflexão sobre a forma de coleccionar e constitui um bom ponto de partida para descrever o panorama actual da criação africana. Ao analisar os mecanismos que espoletaram as acções dos diversos intervenientes, pretendemos, através desta exposição, fazer um balanço prospectivo e definir um manifesto para os tempos vindouros. Chegou a altura de acabar de vez com todas as ideias pré-concebidas sobre África, que se têm arrastado por demasiado tempo, e de eliminar o deletério perfume neocolonialista que dificultou o seu crescimento depois da vaga de independências.

A África não pertence a ninguém, somos os primeiros a afirmá-lo. Contudo, importa, antes de mais nada, que o seu futuro seja definido, não só em Nova Iorque, Paris ou Londres, como também no próprio continente africano. Por homens e mulheres que desde sempre convivem, contactam com ela e acompanham diariamente o seu desenvolvimento, tanto dentro como fora das fronteiras continentais.

Em torno de Fernando Alvim, artista, impulsionador e director da Trienal de Luanda, e de Simon Njami, comissário independente, fundador da Revue Noire e comissário da Africa Remix, a equipa da Fundação Sindika Dokolo responsabilizou-se, a partir de Luanda, pela organização do projecto curador.

Comissários da exposição
Simon Njami
Fernando Alvim